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Já senti diversas dores
Já fui atrás de doutores
Em hospital, missa e festa
Porém eu nunca vi nada
Igual uma ferruada
De um maribondo na testa.
Em se tratando de dor
Já escreveu o doutor
Lenísio cirurgião
Que a maior em evidência
É a dor da consciência
E eu até lhe dei razão.
Dor do parto, dor de dente
Queimadura em leite quente
Dor de corno, de calote
E outra dor de lascar
É o cabra machucar
Um cunhão no cabeçote.
E a arraia, meu patrão
A bicha tem um ferrão
Que pegando o nego na praia
Se o cabra não chorar
Não mijar ou não cagar
É porque não foi arraia.
Já fui picado de enxú
Boca torta, capuxu
E até por italianas
E por maribondo então,
Várias vezes, meu patrão Só abaixo das pestanas.
Mas um dia, pode crer
Inventou de aparecer
Um cachorro da mulesta
Que eu não sei porque razão
Me atochou o ferrão
Mesmo no centro da testa.
Êita que dor infeliz
Doía testa, nariz
Minha vista faiscava
Arrepiava o cabelo
Quanto mais botava gelo
Mais o calombo aumentava.
Mãe trazia faca quente
Lã de álcool, de aguardente
Semente de pinhão roxo
Era o remédio eu botando
E minha testa ficando
Igual um carneiro mocho.
Passei a noite todinha
Do quarto para a cozinha
Não comia nem dormia
Testa dura feito um frande
Eu sei que a dor foi tão grande
Que deu até poesia. |