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Seu moço, o mundo de hoje
tá munto disinvolvido
tudo quanto é istrovenga
tem no mundo aparicido
tem carro branco, azulado
uns redondo, outros quadrado
uns piqueno, outros cumprido.
Tem um tá de telefone
qui também foi inventado
um trocin piquininim
mai, porém, munto educado.
De palavra leva um fêxo
nêgo abre o par de quêxo
fala pra quaiquer istado.
Lá im casa tem um raido
fei qui só o satanás
um bicho assim quadrado
como uma lata de gás.
O qui se passa no mundo
coisa boa, coisa ruim
o bicho é tão fuchiquêro
qui conta tudim a mim.Mai dotô me acredite
qui num é mintira não
pois até um dia desse
pode acreditar, patrão
juro por Virge Maria
num sabia qui ixistia
a tá da televisão.
E foi pur isso, seu moço
que fiquei abestaiado
cheguei na fazenda e vi
o tá do TV ligado.
Quando eu avistei o bicho
corri pra casa assombrado.
Pra acabar de completá
num sei se foi por capricho
na hora que eu vi o bicho
uns caba tava jogano.
Aí eu fiquei pensano:
- Esses caba tão lá dento!
Uns correno iguá jumento
e outros só chuteano.
Quano eu vi a fala dele
e também o jeito seu
fiquei certim qui aquilo
era um raido iguá o meu.
Se o raido da fazenda
tem jogador pra danado
cada negão desgraçado
como eu acabei de vê
num vô dizê com firmeza
mas tenho quase certeza
qui o meu também dever ter.
Quano eu fui entrano em casa
já fui veno o camarada
com uma zuada danada
no mermo jogo falano
Falô num tá de Baiano
qui joga qui só o cão
inté um tá de Facão
também tava lá jogano.
Disse qui até um Leão
tava lá no mei da barra
e toda bola qui vinha
o disgraçado agarrava.
Eu fui, disse assim: -Sujeito
pruquê tu só fai zuada
e num me amostra nada
pra mode eu apreciá?!
Se você num me amostrá
ficá fazeno arrudei
eu pano você no mei
só pru mode arrepará.
Continuô na zuada
fez qui nem tinha iscutado.
Eu fui lá detrás da porta
dei de garra do machado
prantei em cima do peste
foi caco pra todo lado.
O raido era munto véio
tinha mais de vinte ano
todo tipo de inseto
tava lá dentro morando.
Largatixa, gafanhoto
inté um grilo cantano.
Saiu uma cobra verde
numa carrêra danada
entro den'da minha calça lá em cima fez parada
eu doido pra me livrá
miti a mão pra puxá
arrastei a cobra errada.
Nêga Joana, minha prima
tava sentada no chão
com um móio de feijão
disbuiano sem surrir
vi um baratão subir
e na sua rôpa entrá
se infiô num lugá
qui deu trabai pra saí.
Quano a nêga pressintiu
pegô pulá e dá pôpa
torô o cordão da saia
saiu correno sem rôpa.
Correu um rato graúdo
ligêro qui só o cão
peitô na mão dum jumento
botô o bicho no chão.
Inté um cabrito novo
qui a cabra tinha parido
já fazia uns oito dia qui
o bicho tinha sumido
sabe adonde o peste tava
dento do raido iscondido!
Tinha tanta da barata
qui dava para encher mala
de toda cor e tamanho
correno no mei da sala.
Já tinha barata véia qui
andava de bengala.
Tinha um nim de sariema
uma casa de bisôro
um chapéu de marimbono
um trancilim véi de ôro
qui um rato tinha levado.
Tinha um chifre de viado
e um chapéu véi de côro.
De tudo tinha um bucado:
Um caco véi de inxada
um pinico véi de barro
uma panela quebrada
mai jogador que é bom
pode crê, não tinha um
bola, chutêra, nem nada. |