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Ouvi dizer que na Bíblia
escrito um negócio tem
Jesus mandando fazê
o bem sem olhá a quem;
Eu não quero discordá
mas fui fazê sem olhá
e não me dei muito bem.
Eu todo dia levava
o comê pro tabulêro
pra mode não ir em casa.
Debaixo dum juazêro
numa pedra eu me sentava
e sempre sempre almoçava
encostado a um formiguêro.
As formigas não mordiam
eram todas bem mansinha
eu dizia essas formiga
não comeram hoje nadinha
e por ter bom coração
espatifava no chão
um punhado de farinha.
As bicha se acostumaram
já sabiam inté a hora
quando eu batia no prato
saía tudo pra fora
eu tirava do bizaco
e elas para o buraco
a farinha iam levano.
Mas um dia eu fiquei veno
uma delas só comeno
e as outra trabalhano.
Aí eu pensei comigo
essa deve tá doente
botei mais comê pra ela
a bicha meteu o dente
e quanto mais eu botava
a danada devorava
iguá uma foragêra
dispois deu um salto solto
deu em seguida um arroto
cobriu tudo de poêra.
Todo dia a mesma coisa
haja comê na formiga
a bicha criô barriga
e começô a crescê
um dia eu mandei enchê
um panelão de miúdo
mocotó, feijão graúdo
mas quando eu fui almonçá
a bicha tinha ido lá
comeu com panela e tudo.
Eu disse tem nada não
eu passo o dia de fome
mas amanhã ela não come
pra deixá de sê vadia
quando foi no outro dia
eu levei outra panela
botei lá no canto dela
fiquei tirano a vigia.
Daí a pouco eu notei
o mato abrino e fechano
a bicha vinha chegano
que chega vinha baxêra
eu fui saltei na pexêra
pulei bem em frente a ela
quando vi o tamanho dela
quis logo fazê carrêra.
Maió do que um jumento
tinha a formiga ficado
inté dois chifre na testa
a peste tinha criado.
Eu quis corrê da parada
mas levei uma chifrada
criei raiva intrei na briga
levei no trasêro um chute
maginei isso é o fute
disfarçado de formiga.
Corri montei no jumento
fui na cidade apressado
dei logo parte ao sargento
ele chamô dez soldado
convidô o capitão
formô logo um batalhão
deu na corneta umas nota
gritô pra tropa de briga
vamos buscá a formiga
é pra trazê viva ou morta.
Quando nós chegamos lá
começô o tirotei
pegaro logo a cercá
dêxaro a bicha no mêi
mas o tirotei serrado
não mostrava resultado
parece até desafôro
as bala batiam nela
estralava nas costela
não marcava nem o côro.
Dispois de umas duas hora
acabou-se a munição
o sargento disse agora
nós vamos pegá de mão
levô um soco cruel
vuô em busca do céu
caiu depois de três mês
lutá como aquela ali
só um tá de Bruce Lee
qu'eu vi num filme uma vez.
Deu um murro num soldado
tirô ele do caderno
mandô outro pro inferno
com um assopro somente
dispois arrochô o dente
na perna do capitão
deu um coice num negão
que por trás ia passano
o pobre saio vuano
foi cair no Maranhão.
Não foi meia hora não
era fêi o distampido
uns oito duro no chão
o resto tinha corrido
eu frechei de mato adento
utrapacei o jumento
que há tempo tava correno
na carrêra que eu ia
fui batê na moradia
do véio Mané Piqueno.
O véio Mané Piqueno
catimbozêro afamado
disse já fui informado
Pilintra vêi me avisá
você pode entrá pra cá
deixe a formiga pra mim
qu'eu vô mexê nos pauzim
pra mode ela se aquetá.
Pegô batê num sabumba
pulá que nem um pernêta
depois fez umas careta
insurtando a inimiga
tô doido por uma briga
gritava o véi xangozêro
quando dei fé no terrêro
tinha chegado a formiga.
Deu logo um soco na porta
que a tramela vuô fora.
o véi Mané nessa hora
pegô logo a se benzê
com uns gái de mussambê
depois pegô misturá
um meio quilo de sá
com azeite-de-dendê.
Fez lá um sarapaté
com leite de fulô-cera
folha de carrapatêra
dez caroço de pinhão
meia barra de sabão
três xícara de criolina
um litro de gasolina
mais três quilo de carvão.
Depois que misturô tudo
e terminô de mexê
dispejô num agridá
deu pra formiga bebê.
Quando a bicha bebeu tudo
detonô como um canhão
depois virou-se em fumaça
saiu como um furacão
quando eu vi o resutado
fiquei mais desconfiado
que aquilo era mesmo o cão.
Hoje eu dô esmola a cego
a alejado também
caridade eu sempre faço
favor não nego a ninguém
porém enquanto eu vivê
não tem quem faça eu fazê
o bem sem olhá a quem.
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