FALTA DE LETRA

Datô nós num sabe lê
mas conhecemo um poquim
as norma desse país
a gente sabe tudim.
Nós sabe que vosmecê
home que tá no podê
e tem as reida na mão
só num faz proque num qué
mas se vosmecê quisé
miora mais o sertão.

Se nos desse condição
e terra pra trabaiá
e num tivesse acabado
o programa do MOBRÁ
talvez a gente aprendesse
e algumas bestêra lesse
embora num fosse bem
quisesse escrevê prum fio
que mora lá pelo Rio
num tá pedino a ninguém.

Se um cabôco solteiro
por uma necessidade
deixa a noiva lá no síto
vai trabaiá na cidade
se recebe uma cartinha
num sabe lê uma linha
pede aos ôtro mode lê
às vezes tem até medo
se tivé algum segredo
comé que pode escondê?

Dotô, mecê já pensô
se algum dos fio seu
em vez de sê devogado
fosse iguá um fio meu
que passa o dia lascado
tirano capim pro gado
pois se ele num tirá
as vaca num bota leite
e os seus fio pivete
que diabo é que vai tomá?

A gente num tá quereno
nenhuma universidade
só basta aprendê a lê
por uma necessidade
pois essa vida da gente
de puêra e de só quente
não é para os bacharés;
Quem só teve regalia
ia querê algum dia
arrastá cobra pros pés?

E a fava, seu dotô
quem é que ia prantá?
O arroz, a macachêra,
o mí de fazê fubá,
o trigo de fazê pão,
batata, cana, fêjão
e o algodão mocó,
quem prantava, seu dotô
era a máquina, era o tratô?
E o tratô trabaia só?!

Nos dê terra e ferramenta,
cano, motô e canhão
pra nós infrentá a seca
com a tá irrigação
qu'eu prometo a vosmecê,
meu fi aprendeno a lê
e eu teno em que trabaiá,
pode até faltá lordesa
mas comida em nossa mesa
duvido, dotô faltá!